Nem livros nem crianças, a extrema-direita alçou-se como problema na leitura pública

27 de junho 2023 - 13:29

Tentativa da extrema-direita de censurar livros em escolas suecas leva líder Liberal a demarcar-se do partido que quer, na esteira dos ataques nos EUA, censurar a oferta das bibliotecas e a leitura por pequenos estudantes. Por Paula Sequeiros.

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Drag queens Lady Bust and Miss Shemales leem histórias na “Drag queen story hour” na biblionteca municipal de Malmö
Drag queens Lady Bust and Miss Shemales leem histórias na “Drag queen story hour” na biblionteca municipal de Malmö, Suécia. Foto STADSBIBLIOTEKET I MALMÖ

Numa iniciativa pouco comum, o vice-presidente da Câmara de Estocolmo mostrou publicamente, a 13 de junho, que apoia as sessões de leitura para crianças feitas por drag queens. O vice-presidente, membro do Partido Liberal, reagiu assim às declarações a favor da censura emitidas pelos ultraconservadores “Democratas da Suécia” na televisão.

Este partido tem vindo a declarar-se não associado à extrema-direita sueca, apesar de a sua origem e as suas políticas o ligarem ao setor. Note-se que os Liberais integram desde 2022 o órgão legislativo nacional numa aliança de direita e extrema-direita em cujo topo estão os DS, o segundo partido mais representado no parlamento.

A notícia foi destacada em alguns meios de comunicação, a partir de vídeo e tweets do próprio vice-presidente, dado que a figura drag, profissionalmente transformada, foi desempenhada por si a  ler a um grupo de crianças. A história lida, Os irmãos coração de leão, de 1973, que fala sobre a coragem contra o medo, é considerada um clássico da literatura infanto-juvenil e a sua autora, Astrid Lindgren, um nome célebre da literatura sueca.


Jan Jonsson, transformado em drag queen, lê para crianças. Foto: Instagram de Jon Jonsson

 

Na Suécia, e desde 2017, têm tido lugar atividades de leitura por drag em bibliotecas públicas. Para promover a leitura pública com diversidade, o movimento internacional Drag Queen Story Hour foi criado em São Francisco, EUA, em 2015. Será útil lembrar que sessões semelhantes têm tido lugar em bibliotecas públicas de cidades dos Estados Unidos da América, programadas para crianças e adolescentes. Pretendem conseguir familiarização com pessoas transgénero e transformistas, tendo presente que a sua caracterização desafia as convenções cisnormativas da apresentação em público. Por outro lado, inicialmente centravam-se em histórias com papéis de género não dominantes. Em casos recentes, uma outra tendência parece ser o centramento na empatia e na familiaridade com as contadoras, através de práticas de leitura performativa e de clássicos da literatura em cada país.

Antes do mais, é preciso recordar que o conselheiro de Trump, Steve Bannon, declarou em entrevista publicada em agosto passado, como conseguira interferir para colocar pessoas conservadoras nos conselhos das escolas no sentido de reverter as políticas educativas locais, para o que contou com o apoio de uma empresa do Texas de serviços wireless de caráter religioso retrógrado.

Como se pôde ler em meios especializados, em anos mais recentes uma série de ataques foi preparada contra bibliotecas de uso público, sobretudo escolares, e contra o seu pessoal em alguns pontos dos EUA. Se até há cerca de dois anos se manifestavam grupos e organizações contra a disponibilidade de determinados livros em acesso público e os contestavam nos conselhos, a forma de impor a censura à leitura pública tornou-se agora um outro fenómeno. Nos dois últimos anos, e com mediatização, ocorreram vários casos de violência armada e incendiária e de ameaças à vida de profissionais de bibliotecas. O alvo foram aquelas bibliotecas que iriam manter, apesar das ameaças, sessões de leitura sobre a discriminação, em especial a de género e a de raça, para os utentes mais novos.

A confirmação importante que foi publicada nuns poucos meios de comunicação e blogues foi a de que os ataques nos EUA foram preparados de forma concertada e ilegítima para impedir as escolas de abordar questões que a extrema-direita, os setores ultraconservadores e trumpistas propagandeiam são perigosas para a infância e destruidoras do bom nome e da tradição das comunidades locais. Pesquisando a partir das revelações de Bannon, verificou-se que as listas dos propostos para os conselhos continham identificações falsas de indivíduos, com nomes repetidos por mais de uma lista local e falsas residências. Esses indivíduos conseguiram assim integrar e ter peso nos conselhos de gestão de quatro escolas no Texas. Outros conselhos terão sido alterados em competência ou em influência para assegurar a censura. Mais casos poderão vir a ser conhecidos.

Entretanto as perseguições começaram a ser replicadas na Europa. Também no Reino Unido, grupos de extrema-direita envolvidos na desinformação sobre a vacinação COVID19, neo-nazis e um grupo de supremacia masculinista promoveram ataques a bibliotecas com leituras anunciadas por artistas drag. De acordo com peças de há poucos dias de The Guardian, cerca de 50 tentativas de impedir leituras drag para famílias foram pesquisadas jornalisticamente. Sobressaiu na criação de hostilidade e de desinformação o papel influente de parlamentares da Casa dos Lordes e da dos Comuns através de posições difundidas publicamente.

Este retrocesso nas ideias e na cultura tem contado com a resistência de novos agentes, declarações e eventos pela liberdade de expressão e contra a exclusão das temáticas anti-LGBTI+ e anti-racistas. Associações de bibliotecárias e bibliotecários a trabalhar nos EUA, a par de outras como a associação de editoras PEN America, têm-se posicionado firmemente pela liberdade de acesso à expressão a propósito de sessões sucessivamente “contestadas”. Ativistas têm disseminado formas de resistir a este tipo de ataques censórios e descriminatórios e criaram campanhas públicas como a Right to Read Day. Em alguns estados as perseguições censórias foram por fim paradas em instâncias judiciais ou municipais.

Se várias das histórias contadas não têm sido, em si, o alvo da censura, como não o buscar na simples presença das próprias drag em espaço público? Esta faceta das denominadas guerras culturais promovidas pelas direitas mais conservadoras e extremas tem levado a questionar, com  profundidade e urgência, os objetivos de grupos e redes obscuras que desinformam com alertas populistas e se dissimulam com modos de paladinos na proteção das crianças.

Termos relacionados: Cultura LGBTQI+